Quantas cores cabem num lápis “cor-de-pele”?

Reflexões sobre representatividade, terminologias e o racismo no Brasil


Mainara Thaís - Educativo Piraporiando


Ilustração das artistas francesas Aline e Célia (Foto: Reprodução/Instagram @sacree_frangine)


Seja na infância, adolescência ou período adulto, muito provavelmente você já teve contato com um lápis colorido popularmente chamado “cor-de-pele”, certo? Será que você já deu atenção ou refletiu melhor sobre esse material utilizado para colorir? Ao mesmo tempo, já parou para pensar sobre qual pele essa tonalidade faz alusão e como isso dificulta os processos de autopercepção dos sujeitos não contemplados por essa referência?


O caso do lápis é um importante exemplo de como, de maneira inconsciente e subjetiva, terminologias e práticas são incorporadas na vida social, criando referências únicas e réguas de definição. O lápis é um material frequentemente trabalhado na educação básica, desde o ensino infantil. Por isso, quando trazemos essa discussão, falamos sobre a construção dos nossos parâmetros desde cedo. Para além, também falamos sobre como a linguagem, enquanto fenômeno vivo, participa da naturalização de certas concepções. É aí que entram em cena as diversas terminologias que descaracterizam, animalizam e silenciam grupos raciais historicamente invisibilizados.


A supressão de outras tonalidades de pele, por estar ligada a criação de padrões-referenciais, cria estranhamento a tudo aquilo que se distancia desse modelo. Mais uma vez tropeçamos nas barreiras do colorismo e do processo de desumanização de corpos não-brancos, especialmente negros e indígenas. Quando presenciamos essas categorizações, vimos como as políticas coloniais reverberam até os dias presentes, permeando a maneira como nos entendemos e entendemos o outro ao considerar ‘tipos ideais’.


A falta de opções que representem a diversidade existente é, na realidade, uma postura sistêmica. Não se trata de um problema com a produção, com insumos, ou com qualquer parte específica do processo. Trata-se da introjeção de políticas embranquecedoras que fazem com que, do nível micro ao macro, utilizemos padronizações em todas as esferas do cotidiano. Trata-se da falta de representação e representatividade que norteia ações, projetos, espaços, políticas e produtos.


No Brasil, vivemos aspectos específicos decorrentes do processo de miscigenação como uma prática de embranquecimento da população. Por isso, é importante dizer que, embora traços mais distanciados dos fenótipos africanizados tendam a ter mais tolerância em sociedade ou até mesmo certo grau de passabilidade em determinados espaços, isso não significa que eles deixem de sofrer as mais diversas violências produzidas pelo panorama racial brasileiro. O colorismo não deixa de ser uma estratégia do racismo, uma de suas expressões que, mais uma vez, hierarquiza, limita e distorce.


Considerando essas questões, afinal, como é possível se enxergar e construir um processo de identidade, se as possibilidades ofertadas fazem alusão a características que não te contemplam? Como é possível construir autoestima e pertencimento, se os referenciais trazidos, além de limitados e limitantes, geram distorções sistêmicas? É por isso que essa discussão deve passar (e estar!) por todo espaço educacional: na estruturação dos conteúdos, na didática e abordagens em sala de aula, nos materiais pedagógicos, nos processos de gestão, nos canais de escuta… Todo e qualquer ambiente pode (e deve!) reverberar a educação antirracista como uma estratégia fundamental de combate ao racismo.


É importante que possibilitemos a construção de espelhos reais, onde seja possível enxergar a multiplicidade das nossas características e valorizá-las tal como são, fortalecendo os processos de identidade e a criação de autoestima. Crianças não-brancas devem se desenvolver em espaços onde seja possível se ver e se entender, afinal, essa construção faz parte do processo educacional, sendo um direito básico para todos e todas. Percorrer esse caminho demanda um resgate histórico-social, a busca por novas narrativas, o distanciamento de quaisquer perspectivas homogeneizantes, além da criação de novos repertórios. Enquanto o singular hegemônico for considerado regra, não avançaremos para a construção de coletivos reais. Por fim, a diversidade das tonalidades de pele existentes jamais caberão na redução ao rosa-salmão.


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