Escutas e afeto no ambiente de trabalho

Por Mainara Thaís - Educativo da Piraporiando



Nos últimos tempos, cada vez mais ouvimos questões sobre as construções presentes nos espaços de trabalho. Com as rápidas mudanças testemunhadas nesse campo a nível mundial e, consequentemente, nacional muitos eixos têm sido repensados e rediscutidos. Sejam as dinâmicas de ação, a composição do espaço e a divisão de tarefas entre cargos, a pluralização do corpo de gestores/as e colaboradores/as, as estruturas hierárquicas, a concepção de liderança, a disposição de salários e planos de carreira... Todos esses pontos têm caracterizado pautas de reorganização e até de remodelagem para acompanhar os novos movimentos presenciados.


Sabe-se que, a partir do processo de globalização, de fato, muitas coisas mudaram. Com o avanço e a incorporação das tecnologias baseadas na internet, inúmeros processos foram dinamizados e isso trouxe diversos impactos. A conectividade permitiu diminuir distâncias quilométricas, agilizar operações, transformar processos... O avanço das pautas mobilizadas pelos movimentos sociais também influenciou as discussões espelhadas no campo do trabalho, principalmente no que diz respeito à luta antirracista, anticapacitista, antilbgtfóbica e em prol da equidade de gênero. Isso permitiu avanços muito significativos para a sociedade. Por outro lado, apesar das facilitações promovidas e das inúmeras reflexões incorporadas no nosso cotidiano laboral, muitas estruturas ainda se mantêm defasadas.


Às vezes realmente existe a vontade de mudar por parte da empresa. Ações de diversidade são mobilizadas, programas de recrutamento inclusivo passam a acontecer, mas tudo de maneira pontual e segmentada. Na hora de colher os resultados? Colaboradores ainda exaustos, desgastados, insatisfeitos e, às vezes, até mesmo adoecidos. A partir disso as organizações e especificamente a área de gestão de pessoas – naturalmente pensam: o que foi feito de errado? Será que isso é um reflexo do ritmo de trabalho? Será que, mesmo com as mudanças, esse tipo de situação se repetirá? Será que isso é ‘normal’?


A utilização dessas expressões ainda é muito comum porque, realmente, normalizamos uma série de condutas e comportamentos que fazem parte da vida social. As posturas que acontecem no mercado de trabalho não são diferentes, elas acompanham uma lógica coletiva. Nos momentos mais críticos talvez fosse produtivo fazer um outro tipo de questionamento: onde estão os espaços de escuta no trabalho? De que forma a afetividade tem sido trabalhada? As práticas têm sido integrativas?


Isso porque a afetividade diz respeito à forma como afetamos o outro e como o outro nos afeta. A afetividade, na prática, se preocupa com toda a estrutura existente no espaço, com a condução das relações por aquele meio e com cada processo executado, do mais simples ao mais complexo. Entender sobre o processo de afetividade é ter consciência de que toda aquela esquematização geral produzirá implicações específicas ao sistema e isso, claramente, afetará a todos/as envolvidos/as.


Existem passos fundamentais para o fortalecimento dos ambientes. No caso do mundo do trabalho, a diversificação do quadro de colaboradores e outras práticas que reconheçam a diversidade é mais que urgente. Mas, ainda assim, essas não são as únicas ações necessárias e nem se esgotam entre si. É por isso que falar sobre afetividade é tão importante. Será que a política de feedback tem acontecido de forma fluída? Como esses feedbacks têm sido feitos? As cobranças são compatíveis em relação aos cargos e à capacitação desses? E os salários? Além de compatíveis com as tarefas realizadas, também são equalitários? As cargas e responsabilidades distribuídas são equilibradas e equivalentes? Será que as práticas de comunicação estão em dia? Como o reconhecimento tem sido feito? Quais são os suportes dados aos/às colaboradores/as? Quais são os canais de escuta existentes?

Esses são alguns dos inúmeros questionamentos possíveis que visam repensar a estrutura existente numa organização e agir sobre esta com base em tudo o que já existe e, principalmente, com base no que é trazido e observado por quem a compõe. Trabalhar a afetividade no ambiente de trabalho pressupõe a busca pela comunicação fluida e aberta, com o intuito de otimizar a vivência e o desenvolvimento de todos/as os/as integrantes do espaço. Após o período pandêmico vivenciado muitos desafios foram intensificados. Um deles é o esgotamento mental provocado por dinâmicas de trabalho incompatíveis, não apenas “ritmos”. Por isso, se atentar a esses fatores é buscar em conjunto novas maneiras de desenvolvimento e a responsabilização dos afetos. O trabalho é uma parte da nossa vida. É importante que essa parte possa caminhar com os nossos processos de maneira frutífera. Não existe equilíbrio sem afeto e não existe afeto sem escuta.



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